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F&B & Restauração 1 de Abril de 2026 4 min de leitura

Food Cost: o número que o seu restaurante não pode continuar a ignorar

Há uma conversa que tenho repetido vezes sem conta nos últimos anos, em restaurantes de Lisboa, de Coimbra, do interior, do litoral. Sento-me com o dono, peço para ver os números e, invariavelmente, a conversa começa sempre com a mesma frase: “Eu sei mais ou menos o que gasto em produto.”

Mais ou menos. É aí que está o problema.

Na restauração, “mais ou menos” é o equivalente a abrir um buraco no casco de um barco e achar que está tudo bem porque o barco ainda não afundou.

O que é o food cost e porque é que a maioria dos restaurantes o calcula mal

Food cost é a percentagem da faturação que vai para o custo de matéria-prima. A fórmula é simples: custo dos ingredientes do prato a dividir pelo preço de venda, multiplicado por 100. Um prato que custa 4 euros a produzir e se vende a 14 euros tem um food cost de 28,5%.

Dito assim parece fácil. O problema é que a maioria dos restaurantes em Portugal não tem fichas técnicas reais, não regista o desperdício, não controla as quebras e não monitoriza as flutuações de preço dos fornecedores. O resultado? Acham que têm um food cost de 30% quando na realidade estão nos 42%.

Essa diferença, multiplicada por 365 dias e por todos os pratos vendidos, pode ser a diferença entre um negócio que sobrevive e um que fecha portas em dois anos.

Os 4 lugares onde a margem desaparece sem deixar rasto

Durante mais de uma década a trabalhar dentro de cozinhas e na gestão de operações F&B, identifiquei quatro padrões que se repetem quase universalmente.

Compras sem referência de preço. Quando não existe uma lista de preços atualizada e validada, qualquer fatura do fornecedor é aceite sem questionar. Os preços sobem aos poucos, ninguém repara, e o food cost vai subindo com eles.

Fichas técnicas inexistentes ou desatualizadas. Uma ficha técnica sem gramagens reais é um documento inútil. Se o chef puser “quantidade suficiente” nas especiarias ou não contabilizar a perda de peso na confeção, os cálculos são uma ficção.

Desperdício não registado. O que vai para o lixo não aparece em nenhum relatório. Mas sai do bolso. Cada quilo de produto desperdiçado é dinheiro que pagou sem vender.

Menu com pratos âncora no sítio errado. Os clientes pedem os pratos que estão mais destacados no menu. Se esses pratos têm food cost elevado, está a vender mais para ganhar menos.

A restauração não morre de falta de clientes. Morre de falta de controlo sobre o que acontece entre a compra e o prato que chega à mesa.

Por onde começar: 3 ações concretas para esta semana

Não estou aqui para vender uma solução complicada. Estou aqui para dizer o que resulta no terreno.

Se está a ler este artigo e a reconhecer o seu negócio nestas palavras, comece por aqui.

Primeiro: levante os últimos 3 meses de faturas de fornecedores e cruze com as vendas. Não precisa de software sofisticado. Uma folha de Excel bem feita chega para perceber onde está a perda maior.

Segundo: escolha os 5 pratos mais vendidos do seu menu e faça a ficha técnica real — com gramagens pesadas, perdas na confeção e custo de cada ingrediente ao preço atual. Não ao preço de há um ano.

Terceiro: durante duas semanas, registe tudo o que vai para o lixo. Tudo. Não para punir ninguém, mas para ter dados reais sobre onde está o desperdício maior.

Com estes três passos vai ter uma imagem muito mais clara do que está a acontecer. E o que vai encontrar vai surpreendê-lo — para o pior, mas também para o melhor, porque o problema tem solução.

O que um diagnóstico externo muda

Quando entro num restaurante para fazer um diagnóstico, não trago respostas pré-feitas. Trago olhos novos. O dono está tão dentro do negócio que muitas vezes deixou de ver o óbvio. Um olhar externo, técnico e sem filtros, é muitas vezes o que falta para perceber onde está o problema e, sobretudo, para ter coragem de o resolver.

Não sou consultor de escritório. Venho ao terreno, analiso as compras, falo com a equipa, observo a operação real. É assim que as coisas mudam de facto.

Se quer perceber quanto está a deixar na mesa, comece pela conversa. É gratuita e sem compromisso.

FV
Filipe Viseu
Consultor F&B & Alojamento · Mentor de Carreira · Pai

Mais de uma década em operações de restauração e hotelaria em Portugal. Escrevo sobre o que vivo, o que aprendo e o que me interessa — sem teoria de secretária.